O uso de antibióticos em pediatria

setembro 29, 2020 - by Gabinete de Comunicação e Imagem - in Dicas & Notícias

No Comments

INTRODUÇÃO

Os antibióticos constituem actualmente o grupo de medicamentos mais prescriptos quer em hospitais, como em outras instituições sanitárias, sendo a frequência da sua prescripção maior na faixa etária pediátrica, com relevância para o grupo de crianças menores de cinco anos de idade1,2,3.

As doenças infeciosas, são uma das causas de maior procura dos serviços de urgência pediátrica, o que leva ao aumento da prescripção deste grupo de medicamentos nestes serviços. A taxa de prescripções inadequadas tanto no âmbito hospitalar como comunitário, é considerada elevada, estimando-se em cerca de 30-50% dos casos. 4,5,6,.

Alguns factores implicados nesta prescripção inadequada foram identificados, com relevância para o elevado número de pacientes com quadros respiratórios que acorrem a estes serviços, bem como a incerteza no diagnóstico da causa da infecção respiratória (se viral ou bacteriana). Desta feita, conclui-se serem as infecções respiratórias, a principal causa de prescripções inadequadas de antibióticos 7,8,9.

Dados da Organização Mundial de Saúde (OMS), relatam ser este uso irracional e inadequado de antibióticos, a causa mais comum de problemas relacionados com o surgimento de reacções adversas e da resistência bacteriana a estes medicamentos. 11,12

 

FACTORES QUE DEVEM SER CONSIDERADOS NO USO DE ANTIBIÓTICOS EM PEDIATRIA

1- Factores relacionados à faixa etária

Alguns factores como a idade e o peso, devem ser analisados no momento da escolha do antibiótico a ser usado, com vista a se atingir os efeitos desejados e reduzir a toxicidade. 

2- Factores relacionados às características imunológicas e fisiológicas:

De acordo com cada faixa etária, é comum a ocorrência de doenças provocadas por microrganismos (bactérias) oportunistas, devido a deficiência imunológica e fisiológica decorrente da idade. É importante referir que, o processo de crescimento do sistema imunológico, inicia-se na vida uterina e vai se desenvolvendo até a adolescência, altura em que atinge o amadurecimento semelhante ao do adulto12,13.

3– Farmacocinética pediátrica

Esta relacionada ao conhecimento dos processos que envolvem as etapas que vão desde a absorção, distribuição, biotransformação e excreção dos medicamentos administrados e dos seus derivados metabólicos, permitindo a escolha do melhor medicamento, bem como o entendimento das modificações fisiológicas que ocorrem na população infantil e suas consequências na farmacoterapia12,13.

 

SITUAÇÕES CLÍNICAS QUE MAIS FREQUENTEMENTE LEVAM A PRESCRIPÇÃO DE ANTIBIÓTICOS  

Tendo em conta a grande variabilidade de antibióticos disponíveis actualmente, torna-se imprescindível a realização de uma rigorosa selecção daqueles que deverão ser utilizados, usando-se critérios que permitam o uso adequado dos mesmos. Uma vez avaliada a necessidade de se instituir um tratamento com antibióticos e de acordo com os achados clínicos do paciente; deve-se ter em conta a gravidade e o estado geral da criança; as bactérias mais provavelmente implicadas, segundo o local de infecção;  a via de administração a ser usada e a duração do tratamento; os efeitos secundários e o custo dos medicamentos13.

A literatura tem demonstrado, serem as infecções respiratórias agudas, a principal causa de morbilidade e mortalidade em crianças menores de cinco anos de idade, tanto em países desenvolvidos como em desenvolvimento e com a generalização do uso de antibióticos na prática clínica diária, é comum a prescripção dos mesmos no tratamento destas infecções, mesmo naquelas de causa viral. É importante referenciar que muitas vezes, esta prescripção inadequada de antibióticos em infecções respiratória agudas de causa viral, resulta não só da dificuldade clínica em diferenciar infecções virais e bacterianas, como também da pressão que frequentemente é exercida pelos pais da criança doente ao médico13,14.

Um estudo realizado por uma equipa portuguesa de profissionais médicos, com o objectivo de caracterizar a prescripção de antibióticos orais no Serviço de Urgência Pediátrico de um hospital de nível II da região centro do Porto e de Coimbra, encontrou ser a Otite Media Aguda, as Amigdalites e as Infecções do Trato Respiratório Superior, as que mais motivaram a prescripção de antibióticos, sendo a Amoxicilina, seguida da Amoxicilina com Ácido clavulânico e dos Macrólidos, com predilecção para Azitromicina os antibióticos mais frequentemente prescriptos, na faixa etária pediátrica13,14.

 

CONCLUSÃO

Na prescripção de antibióticos em crianças, devemos ter em conta o uso prudente dos mesmos, com o objectivo de controlar ou alcançar a cura do processo infeccioso e minimizar os efeitos adversos, incluindo a indução de resistências bacterianas. Para o efeito, é importante antes de se prescrever um antibiótico, ter em conta os seguintes aspectos:

1- O tipo de infecção justifica a prescripção do antibiótico? Devemos procurar as características clinicas que diferenciem as infecções virais das bacterianas.

2- Que antibiótico deverá ser prescripto? Devemos ter em conta o local de infecção e os microrganismos mais frequentemente implicados.

3- Que características tem o paciente? Devemos ter atenção a idade da criança, os factores de risco, as alergias.

4 – Dose do fármaco e duração do tratamento. É importante considerar que a concentração necessária do antibiótico, varia em função do local de infecção e que concentrações abaixo das indicadas, induzem resistências bacterianas.

5 – Esclarecer a família sobre o objectivo do tratamento e a importância do cumprimento do mesmo.

6 – Desincentivamos os pais e cuidadores, a prática do uso incorrecto e indiscriminado, sem prescripção médica de antibióticos em crianças.  

 

 

BIBLIOGRAFIA

  1. Coon ER, Young PC, Quinonez RA, Morgan DJ, Dhruva SS, Schroeder AR. Update on pediatric overuse. Pediatrics. 2017;139.
  2. Santos DB, Batista LA, Lima LD, Coelho HL. Systematic review of descriptive studies on the use of medicaments in hospitalized children. Rev Bras Farm Hosp Serv Saúde São Paulo. 2011;2:26‑30.
  3. Al‑Metwali B, Mulla H. Personalised dosing of medicines for children. J Pharm Pharmacol. 2017;69:514‑24.
  4. Brussee JM, Calvier EA, Krekels EH, Välitalo PA, Tibboel D, Allegaert K, et al. Children in clinical trials: towards evidence‑based pediatric pharmacotherapy using pharmacokinetic‑pharmacodynamic modeling. Expert Rev Clin Pharmacol. 2016;9:1235‑44
  5. Durán Fernández-Feijóo C, Márques Ercilla S, Hernández Bou S,Trenchs Sainz de la Maza V, García García JJ, Luaces Cubells C.Calidad de la prescripción antibiótica en un servicio de urgências pediátrico hospitalario. An Pediatr (Barc). 2010;73:115—20.
  6. Fernández-Urrusuno R, Flores-Dorado M, Vilches-Arenas A, Serrano-Martino C, Corral-Baena S, Montero-Balosa MC. Adecuación de la prescripción de antibióticos en un área de atención primária: estudio descriptivo transversal. Enferm Infecc Microbiol Clin. 2014;32:285-92.
  7. National Institute for and Clinical Excellence. Respiratory tract infections – antibiotic prescribing. Prescribing of antibiotics for self-limiting respiratory tract infections in adults and children in primary care. Issue date:July 2008 [consultado 6 Ago 2016]. https.//www.nice. org.uk/guidance/cg69/evidence/full-guideline-196853293.
  8. Ochoa C, Inglada L, Eiros JM, Solís G, Vallano A, Guerra L. Appropriateness of antibiotic prescriptions in community-acquired acute pediatric respiratory infections in Spanish emergency rooms. Pediatr Infect Dis J. 2001;20:751-8.
  9. Grigoryan L, Monnet DL, Haaijier-Ruskamp FM, Bonten MJ, Lundborg S, Verheij TJ. Self-medication with antibiotics in Europe: A case for action. Curr Drug Saf. 2010;5:329—32.
  10. le Grand A, Hogerzeil HV, Haaijer-Ruskamp FM. Intervention research in rational use of drugs: a review. Health Policy Plan 1999;14(2):89-102.
  11. FERREIRA, J.F.S., Imunodeficiências primarias na infância – quando a pediatria deve suspeitar e como deve se conduzir? Revista Saúde Criança Adolescente, v.3, n. 1, p. 58-62, 2011.
  12. MENEZES, C.M.S.L. O Papel do Farmacêutico clínico na terapêutica farmacológica em pediatria. 2014. 57f. Dissertação (Mestrando em Ciências Farmacêuticas) – Departamento de Ciências da Saúde, Universidade Lusófona de Humanidades e tecnologias, Lisboa, Portugal.
  13. Carlos Rodrigo. Uso de los antimicrobianos en la poblacion pediátrica. Enferm Infecc Microbiol Clin. 2010;28(5):310–320
  14. Fátima RibeiroI; Sónia Regina SilvaI; Inês Nunes VicenteII; Sílvia AlmeidaI. Prescripção Antibiótica no Serviço de Urgência Pediátrica de um Hospital Nível II da Região Centro. Revista de pediatria do centro hospitalar do Porto, vol XXII, n.º 4 Nascer e Crescer 2013; 22(4): 216-219

Share this article

Gabinete de Comunicação e Imagem

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

*

20 − 16 =

×

Make an appointment and we’ll contact you.

Nome (obrigatório)

Sobrenome (obrigatório)

Email (obrigatório)

Assunto

A sua mensagem